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ARTIGOS |
Ser criança FACILITA...
No início dos anos 90, entrei em contato com os estudos e experiências de E.Lorenz que culminaram na chamada Teoria do Caos. A partir daí desenvolvi reflexões que me levaram a escrever e publicar Teoria do Caos, Autopoiése, Fractais, Estruturas Dissipativas e outras novidades (na coluna de RH do jornal O Estado de Minas), e após esse, na seqüência: A Aceleração das Mudanças e como enfrentá-la e Recriando-se para a turbulência. Em todos esses trabalhos salientei a importância da informação, flexibilidade e prontidão elementos fundamentais da criatividade para enfrentar uma turbulência que está cada vez mais presente em todos os campos, quase que como uma nova normalidade.
Nos
dias de hoje, uma década depois, a turbulência está
instalada de vez: é o fim das certezas, pequenas causas gerando grandes
efeitos, imprevisibilidade, mudanças aceleradas e o novo a cada instante.
Assistimos agora às certezas dos fundamentalistas religiosos, radicais
de todos os matizes. Um capitalismo insensível, aliado às
certezas de posições políticas radicais. Vivemos uma
grande instabilidade, hoje inevitavelmente globalizada.
Para enfrentar este cenário, soluções antigas têm-se
mostrado inócuas, superadas. Precisamos encontrar criativamente novas
soluções, pois os problemas, ainda que antigos, revestem-se
de novas configurações, acrescido de novos acontecimentos
e acelerada transformação.
Ora, ao observar as crianças, que desde o nascimento até a adolescência enfrentam o novo e o imprevisto a cada momento, que correm riscos, encaram dificuldades, mas sempre caminham para frente, podemos recolher um material precioso que poderá nos servir como modelo para desenvolver nossas atitudes adultas diante da atual turbulência. Por quê não nos inspiramos nas crianças? Com o que as crianças contam para transpor barreiras e avançar? Que recursos elas têm desde o nascimento para crescer e se desenvolver, para enfrentar e sobreviver num mundo totalmente desconhecido e imprevisível para elas? Elas contam basicamente com suas potencialidades inatas, principalmente os sentidos, que são os meios pelos quais se comunicam com o mundo exterior e interior. É através dos órgãos dos sentidos que a criança vai perceber o mundo e reagir a ele.
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A visão está sempre atenta e curiosa, cada vez mais aguçada
à procura de formas, cores e movimentos.
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Pela audição os sons penetram e são captados em todas
suas nuances, mesmo que a capacidade de
traduzi-los por palavras ainda
não esteja desenvolvida.
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O olfato vai se apurando e os aromas são percebidos em seus diversos
matizes.
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O paladar é o sentido que a criança exercita como ninguém,
recusando com ênfase certos sabores e
degustando outros com um prazer
que atinge o corpo todo, integrado e uno.
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Único sentido presente ao longo do corpo todo, o tato capta calor
e frio, aspereza e suavidade, dureza e
maciez, numa infinita gama de sensações
cinestésicas.
Além dos sentidos, a criança também conta com a imaginação. Tão fértil nas crianças, a imaginação é uma capacidade que a educação clássica não tem estimulado e que muitas vezes fica de fora do mundo adulto. No entanto, o faz de conta, é a fonte principal do brincar e do criar: tudo que foi criado, foi antes imaginado.
As emoções e os sentimentos, sempre presentes ao longo do corpo, internalizado, as vezes exteriorizados.
A intuição, fruto do seu DNA e de sua curta história é também sua potencialidade, aliada a total integração corpo-mente, ou melhor, não desintegrados ainda, a uma flexibilidade natural e a reflexos para responder rapidamente a quaisquer estímulos.
São esses os recursos que devemos resgatar da nossa criança, qualquer que seja o meio em que estejamos inseridos: nas organizações, na família, no meio social, cultural, etc. Ser criança não é ser infantil, nem infantilizar o comportamento de maneira caricata. Ser criança é utilizar plenamente todas as nossas potencialidades inatas que por diversos motivos foram adormecendo ao longo da vida. Ser criança é estar diante das coisas como se fosse pela primeira vez, permitindo-se mergulhar no estranhamento, podendo fazer as perguntas mais ingênuas e descabidas, e podendo reagir às situações de modo espontâneo, descompromissado e livre.
Ser criança é deixar-se penetrar pelo mundo através dos sentidos, sem pressa para dar respostas, sem fugir das perguntas e sem colocar o julgamento crítico em ação cedo demais. É poder simplesmente, e num primeiro momento, perceber, sentir e imaginar.
É com isso que contaremos para enfrentar, pessoal e profissionalmente, um mundo turbulento e imprevisto, violento, hostil e competitivo, hoje e como sempre, injusto e desigual. E para isso, ser criança e otimista realmente facilita.
JOÃO KON - Consultor em Criatividade
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Publicado no Jornal "O Estado de Minas" na coluna Recursos Humanos -
29/10/2002 - MG
* Publicado na "Revista T&D" - Outubro/2002 - SP
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