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ARTIGOS |
Planejar é preciso, criar não é preciso, porém...
Navigare
necesse; vivere non est necesse.
Pompeu (1)
Navegadores
antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso, viver não é preciso".
Quero para mim o espírito desta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida, nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser
o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade;
Ainda que para isso tenha de a perder como minha...
Fernando
Pessoa
A experiência de longa data de atuação na área de criatividade, através de seminários, palestras, assessoria a empresas, etc. - tornou possível a redação de artigos que abordam diferentes facetas da criatividade. Uma nova questão a ser agora abordada, fonte de alguma controvérsia, principalmente na área de Recursos Humanos, diz respeito à relação entre Criatividade e Planejamento.
Em resposta a questões levantadas, tenho enfatizado em algumas palestras, que incluem especialistas e alunos de Administração Pública que, para atingir determinados objetivos, é necessário que se faça um planejamento adequado, embora provavelmente seu desenvolvimento não acontecerá conforme o previsto.
Esta afirmação tem provocado num primeiro instante, um certo grau de espanto, que tem me obrigado a explicar com detalhes esse ponto de vista.Tal afirmação encontra respaldo e um certo paralelo nos estudos, mais ou menos recentes, sobre os chamados “sistemas caóticos” (2). São sistemas dinâmicos, afastados do equilíbrio, em desordem (ordem que desconhecemos) mas que geralmente têm na sua origem regras e padrões relativamente claros e de simples entendimento. O detalhe é que, a partir da sua origem, ao longo de seu percurso ocorrem pequenos acasos e interferências que modificam sua trajetória, resultando então uma estrutura caótica e imprevisível. Edward Lorenz (3), meteorologista que estudou os sistemas caóticos a partir de fenômenos da natureza, chamaria isso de “hipersensibilidade às condições iniciais”.
Assim, estabelecendo um paralelo com a questão do planejamento salientamos que, por mais exatos que sejam os dados, por mais coerentes que sejam as ilações, tendo em vista que pequenas causas (acasos) podem gerar grandes efeitos, não é possível evitar que imprevistos interfiram no plano e impeçam que ele decorra conforme o planejado.
A conclusão aparentemente óbvia poderia ser a de que não vale a pena planejar. Muito pelo contrário, é imprescindível que se planeje. É a maneira pela qual é possível intervir em momentos adequados quando o plano sofre desvios, de modo a corrigir o rumo ou mesmo mudar os objetivos. Planejar é fundamental, porque define metas, caminhos e um ponto de chegada. Conforme conhecido ditado popular chinês, “não há ventos favoráveis para quem não sabe aonde quer chegar”.
Logicamente, para essa intervenção seria necessário informação, com flexibilidade e prontidão. A informação, por sua vez, não deve ser entendida como uma coleção de dados – pseudoconhecimento – e sim como Robert Kurz a transmite em seu artigo A ignorância da sociedade do conhecimento (4): “Esse conhecimento miserável de sinais não é, na verdade, conhecimento nenhum. Um mero reflexo não é, afinal, nenhuma reflexão intelectual, mas seu exato contrário. Reflexão significa não apenas que alguém funcione, mas também que esse alguém possa refletir sobre a tal função e lhe questionar o sentido”.
O verdadeiro conhecimento implica em crítica e reflexão, implica em participação real nos acontecimentos, bem como em participação ativa em sua própria produção; implica ainda, numa profunda participação de potencialidades tais como intuição, imaginação, emoções e sentidos, elementos fundamentais da criatividade.
É a criatividade que vai contribuir para a geração de alternativas novas, já que as tradicionais não atendem mais às necessidades das novas circunstâncias. Como Marshal Mc Luhan salientava em seu texto sobre “Síndrome do Espelho Retrovisor”, quando ao volante de um automóvel, para mudar de direção torna-se necessário olhar para o espelho retrovisor, mas se guiarmos olhando apenas para ele, inevitavelmente ocorrerão colisões muito danosas. Ou seja, a história jamais se repete da mesma maneira, e só com criatividade enfrentaremos o novo, criatividade essa que convive com as incertezas, com os riscos e com as dúvidas.
Aliás, convém lembrar também que num mundo globalizado, em acelerado
processo de mudanças, incertezas e imprevisibilidade, só as dúvidas
podem construir e fazer os processos de planejamento atingirem seus
objetivos. Resulta daí então, a necessidade de relacionar-se com o novo,
pensar e sentir as mudanças, sejam elas quais forem. Em suma: Planejar
sim, mesmo
sabendo que não vai acontecer conforme o previsto. Reforçando o que
disse J. Robert W. Penteado em seu artigo: O
planejamento não saiu de moda(4), planejamento e criatividade não são excludentes. Muito pelo contrário,
constituem um somatório de valores construindo juntos novas alternativas,
mesmo correndo altos riscos.
Assim, inspirado em Pompeu e Fernando Pessoa, bem como na ambigüidade do
sentido da palavra “preciso”, a nova proposta é: Planejar
é preciso, criar não é preciso, porém é preciso criar.
JOÃO KON - Consultor em Criatividade
* Publicado
no "Jornal O Estado de Minas" na coluna Recursos Humanos - 16/03/2003
- MG
1.
General romano, 106-48 aC., frase dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam
viajar durante a
guerra, cf. Plutarco, em Vida
de Pompeu.
2. Gleick, James. Caos,
a criação de uma nova ciência. Rio de Janeiro, Ed. Campus, 1990.
3. Lorenz, Edward. A
essência do caos. Brasília, Ed. Univ. Brasília, 1996.