|
|
ARTIGOS |
O Efeito Hong-Kong
Foi apresentado por Edward N. Lorenz em 1972, num encontro em Washington, um artigo intitulado: “Pode o bater das asas de uma borboleta no Brasil, ocasionar um tornado no Texas?".
Após a edição
do livro de James Gleick, "Caos - A Criação de uma Nova Ciência"
(1987), esse artigo ficou conhecido como “O Efeito Borboleta”.
Esse encontro em Washington foi reconhecido como a pedra fundamental para o desenvolvimento da Teoria do Caos, trabalho iniciado por Lorenz e Gleick, e que hoje encontra-se bastante disseminado nos meios científicos e acadêmicos. Gleick, inclusive, sugere que a Teoria do Caos deva exercer sobre o pensamento cientifico contemporâneo uma influência tão importante quanto à de teorias como a da relatividade ou da mecânica quântica.
Os Sistemas Caóticos são aqueles que apresentam dependência sensível das condições iniciais, ou seja, sistemas onde pequenas causas podem ocasionar grandes efeitos e suas variações não são aleatórias, embora pareçam ser.
O estudo desses sistemas será um fator determinante para compreender o processo de aceleração das mudanças, que se tornou evidente nesse final de século e para a construção de ferramentas essenciais para conviver com esse novo ambiente de turbulência.
Ocorre, porém, que toda essa nova área de conhecimento tem sido tratada, na grande maioria das vezes, como fenômenos restritos à Física e à Matemática, sem que se dê conta de que são aplicáveis a sistemas vivos, sociais, políticos, econômicos, comportamentais, etc.
Todo o processo cultural de nossa sociedade foi e tem sido dirigido para a segurança. Agir com convicção, cultivar certezas, tem sido a tônica das receitas de virtude pessoal e o paradigma para o sucesso.
Convicta disso, essa sociedade tratou de desenvolver modelos preditivos que lhe possibilitassem criar um ambiente adequado para avaliar e decidir com segurança. Neste século, as teorias desenvolvidas para o planejamento, criaram grandes estrelas e gurus que passaram a desenhar e determinar o futuro da humanidade.
Entretanto, de certa forma desconcertados e atordoados com o fluxo dos acontecimentos, a pergunta que precisamos tentar responder, sem engodos ou artimanhas, é a seguinte: por que não está funcionando?
Não vamos nos prender a sutilezas e sofisticações para dar exemplos. Vamos olhar apenas
algumas evidências:
Quem foi capaz de prever a dissolução do bloco soviético e a
queda do muro de Berlim sem retaliações militares e nucleares com alguma antecedência
vantajosa?
Que analista político que no inicio de 1993 arriscou-se à
possibilidade de FHC ser o presidente do Brasil? Seria ridicularizar ou
transformado e pilhéria.
E os tigres Asiáticos? Nada mais sólido, mais robusto e mais
seguro. E agora, quem arrisca algum palpite honesto?
Nossa relação, durante vários séculos, com o raciocínio cartesiano e as convicções mecanicistas que sobrevivem com pouquíssimas revisões, criou este cenário da mitologia da segurança. Àqueles que acham que podem conservá-lo, só restará ficarem estarrecidos diante dos fatos, vítimas de surpresas e escravos das transformações.
Na realidade, os modelos preditivos e de planejamento existentes sempre foram incompletos. Apenas estavam sendo utilizados em um mundo mais simples, onde a quantidade e a complexidade das variáveis envolvidas no processo permitiam tratar os sistemas onde eram aplicados, como se fossem sistemas "aproximadamente" lineares. Os resultados obtidos também eram "aproximadamente" corretos.
Entretanto, neste fim de século, as variáveis envolvidas na dinâmica dos sistemas sofreram alterações profundas, tanto quantitativas quanto qualitativas. Os resultados das "aproximações" tornam-se cada vez menos confiáveis. As regras do jogo alteram-se a cada instante; a quantidade avassaladora de informações faz com que seja impossível controlar todas as variáveis (algumas previamente desconhecidas) e, como conseqüência, as coisas não acontecem mais conforme o previsto.
Os recentes acontecimentos que abalaram fortemente o sistema financeiro global vêm reafirmar de maneira inequívoca a importância dessa discussão. O turbilhão causado pela Borboleta de Hong Kong surpreendeu todo o Planeta.
Entretanto, olhando os fatos em retrospecto, por acaso eles
lhe parecem ilógicos? Você não
tem a sensação de que eram perfeitamente previsíveis? Há uma sutileza cruel nessa
constatação, a de que em retrospecto, fatos que foram surpreendentes parecem perfeitamente
normais. Estamos diante de duas rupturas básicas do raciocínio cartesiano:
- O novo paradigma da normalidade; normalidade será a
turbulência.
- A nova normalidade desse paradigma: transformação constante.
Mudanças de paradigmas se dão de maneira sutil e desordenada. Para percebê-la, são necessárias cuidadosas leituras dos fatos, percepção, intuição e uma inquestionável disposição para correr riscos. Segurança, não mais.
Convicções e conservadorismo serão atropelados pela marcha dos acontecimentos. Hoje em dia não se perde mais o prosaico trem da história. Perde-se a aeronave, ou até mesmo a nave espacial.
Estamos todos muito acostumados a compreender a "NORMALIDADE" como calma, paz, segurança, linearidade, previsibilidade. Após uma crise, nossa atitude convicta é a de aguardar a "tranqüilidade".
Entretanto, daqui por diante , a normalidade será a turbulência, um tempo de mudanças bruscas, incertezas e imprevisibilidade. Na tomada de consciência deste processo é quase inevitável a pergunta: isso é bom ou mau?
Falando sobre Globalização, Noam Chowsky, em entrevista à TV Cultura, afirmou que "a Globalização, em si, não é boa nem má, mas um fato. Bom ou mau será o uso que faremos dela".
A Turbulência, podemos nos referir de maneira semelhante. Não há uma classificação dessa natureza para ela. É apenas um fato novo a ser enfrentado e, boas ou más, serão as conseqüências da forma como nos prepararmos para isso.
Não devemos nos iludir imaginando que isso não nos diz respeito individualmente.
A Borboleta de Hong Kong, nos mostra uma causa aparentemente pontual, cujo impacto, sem dúvida, foi global. Não é uma crise passageira que, encerrado o seu ciclo, nos devolverá para um mar de tranqüilidade. Suas conseqüências servirão de alimento para novas mudanças, e o status anterior jamais será resgatado.
O impacto disso se dará, indistintamente, sobre empresários e empregados, governantes e governados, ricos e pobres, pessoas, instituições e empresas.
Se o cenário é de mudanças bruscas, incertezas e imprevisibilidade , valores como segurança, convicções, certezas e lógicas cartesiana não mais constituem as ferramentas adequadas para o êxito de nossos empreendimentos.
Hoje, é necessário enfrentar o novo a cada momento, e para isso instrumentos essenciais serão criatividade, flexibilidade e prontidão.
Prontidão para responder com agilidade às transformações. Criatividade para que nossa respostas sejam eficazes, inovadoras e adequadas ao novo ambiente. Flexibilidade para que a cada momento e a cada mudança, possamos estar nos requalificando para o momento seguinte.
É importante lembrar que estes instrumentos estão presentes em cada um de nós, mas foram atrofiados pela nossa educação fundamentada na mitologia da segurança. Mas podem perfeitamente ser resgatados, e podemos ser re-treinados para sua utilização.
A esse processo de resgate e treinamento é que chamamos de Requalificando-se para a Turbulência. Requalificando-se, no gerúndio, que reflete a dinâmica do processo, a continuidade e a renovação, exigências fundamentais dessa nova ordem.
No momento em que escrevemos esse texto já se realizam previsões sobre a Borboleta da Coréia do Norte. Nossa única certeza sobre isto é a de que as coisas não acontecerão conforme o previsto.
JOÃO KON - Consultor
em
Criatividade
TASSO SCAFF JR. - Consultor em Criatividade
* Publicado no jornal "Ameaças e Oportunidades", Instituto MVC - Estratégia e Humanismo - 25/11/97 - RJ.
![]() |
![]() |
![]() |